sábado, 15 de outubro de 2016

Delator diz que pagou propina a Moreira Franco

Do Jornal Floripa
Cláudio Melo Filho, ex-vice-presidente de Relações Institucionais da Odebrecht, disse à força-tarefa da Lava Jato que pagou propina de R$ 3 milhões a Wellington Moreira Franco, em 2014, quando era ministro da Aviação Civil do governo Dilma Rousseff. Hoje, Melo Filho negocia um acordo de delação premiada. E Moreira Franco, um dos principais conselheiros de Michel Temer, comanda o Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), responsável pelas concessões e privatizações na área de infraestrutura.
Deve-se a revelação da novidade ao repórter Daniel Pereira. Ele teve acesso a parte do teor da delação de Melo Filho, um dos 50 executivos da Odebrecht que suam o dedo em busca de atenuação de penas. Relatou o que viu em notícia veiculada na edição mais recente da revista Veja. O delator esclareceu que o dinheiro repassado a Moreira não era contribuição eleitoral. Ele não disputou eleições em 2014. Na sua versão, tratava-se mesmo de propina.
O ex-executivo da Odebrecht não detalhou as razões que o levaram a repassar R$ 3 milhões ao então titular da pasta da Aviação Civil. Se a delação for homologada, ele terá de provar o que diz. Sob pena de perder os benefícios judiciais que pleiteia. Os advogados da Odebrecht se equipam para prover a explicação aos investigadores da Lava Jato. O dinheiro teria sido desembolsado para que Moreira cancelasse o projeto de um aeroporto que concorreria com negócios da construtora.
Um consórcio liderado pela Odebrecht arrematara a concessão do aeroporto do Galeão, no Rio, que fora levado ao martelo em novembro de 2013. A transação envolvia o compromisso de desembolso de R$ 19 bilhões. No ano seguinte, Moreira intensificou as tratativas para que a Camargo Corrêa e a Andrade Gutierrez construíssem um terceiro aeroporto na grande São Paulo. Ficaria no município de Caueiras.
Esse novo aeroporto concorreria com o de Viracopos, em Campinas, e o de Cumbica, em Guarulhos. Afetaria também o movimento do Galeão. Na época, Marcelo Odebrecht pegou em lanças pelo Galeão. Leo Pinheiro, que presidia a OAS, estrilou por Cumbica. Os dois alegaram que um terceiro aeroporto em São Paulo significaria uma quebra de contrato, já que a construção não estava no horizonte quando suas construtoras arremataram Galeão e Cumbica.
Os advogados da Odebrecht levarão à delação de Melo Filho a informação de que a propina de R$ 3 milhões destinava-se a comprar o cancelamento da obra do terceiro aeroporto de São Paulo. E o projeto, de fato, não decolou do papel. Segundo o delator, o pedido de propina foi feito numa conversa em que estava a sós com Moreira Franco.
Em nota, Moreira Franco negou as acusações de Melo Filho. Disse que jamais pediu ajuda financeira a executivos da Odebrecht. Explicou que o projeto do terceiro aeroporto de São Paulo micou por razões técnicas. “A posição contrária ao projeto foi de natureza técnica”, delarou ele. “Não houve nenhum pedido de contribuição.”
Homem da Odebrecht em Brasília, Melo Filho transitava entre ministros e congressistas. Se homologado, seu acordo de delação implicará muitos parlamentares. Gente de vários partidos. Um deles é o senador Romero Jucá, ex-ministro de Temer e atual presidente do PMDB federal. O delator diz que, entre doações legais e propinas, Jucá recebeu R$ 10 milhões da Odebrecht. Uma recompensa por zelar pelos interesses da construtora em medidas provisórias e projetos de lei que tramitaram pelo Congresso. A exemplo de Moreira Franco, Romero Jucá, que já é personagem de quatro inquéritos na Lava Jato, nega o recebimento de verbas ilegais.