terça-feira, 19 de julho de 2016

UFRN comprova viabilidade de tijolo gerado por resíduos do petróleo

Novo Jornal
O tijolo é a principal matéria-prima usada na Construção Civil. Com os crescentes estudos sobre alternativas sustentáveis para o meio ambiente, o tijolo de solo-cimento ou tijolo ecológico vem sendo considerado por especialistas como menos agressivo para a natureza se comparado ao tijolo convencional.
Foi a partir de uma tese de doutorado e à convite da Editora alemã Springer, que os professores Wilson Acchar e Sheyla Marques, desenvolveram o livro “Ecological Soil-Cement Bricks from Waste Materials”. A obra aborda a possibilidade da fabricação do tijolo ecológico com o aproveitamento de resíduos gerado pelas indústrias, a partir da utilização da cinza do bagaço da cana-de-açúcar (um dos principais resíduos do setor sucroalcooleiro, gerado na queima da cana) e do cascalho (resíduo que é proveniente da perfuração de poços de petróleo).
As matérias-primas foram caracterizadas por técnicas que comprovassem que não eram nocivas, ou seja, que não possuíam radioatividade e toxidade. Dessa forma, foram feitas análises mineralógicas, a técnica da difração de raios X, microscopia eletrônica, entre outras. Os estudos dos professores comprovaram a eficácia do produto com a realização de ensaios específicos que avaliaram as propriedades físicas, química e mecânica do material. Assim, os 18 corpos de prova obtidos em quatro diferentes formulações e passaram por ensaios de perda de massa por imersão, absorção de água e comprovação da resistência por compressão.
No Brasil, o tijolo de solo-cimento passou a ser fabricado na década de 1970, o produto pode ser útil na construção de residências, instalações comerciais e industriais. O material é resultante da mistura homogênea, compactada e curada de Solo (argila) + Cimento + Água e a incorporação de resíduos. Durante a fabricação, a massa é misturada numa maromba, depois levada a uma matriz que é vendida comercialmente, prensada de acordo com o molde e depois curada. Curar no processo de fabricação do tijolo ecológico significa tomar resistência e passar por reações químicas para obter durabilidade.
O melhor resultado do estudo foi com a incorporação de 86% do cascalho + 12% de cimento + 2% de cinza. A doutora em Engenharia de Materiais, Sheyla Marques, explica que o cascalho possui a sílica, composto químico que aumenta em quatro vezes a resistência à compressão, e que a cinza também colabora com a resistência física do material, pois reage de forma eficaz com o cimento. Os corpos de prova também receberam a aplicação de esmalte que contribui na diminuição da absorção da água e possibilita a melhora no acabamento dos tijolos.
Segundo o professor Wilson Acchar, do Departamento de Física Teórica e Experimental (DFTE) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), o produto possibilita o aproveitamento de resíduos que geralmente vão para aterros e destinos inadequados. ‘’Desenvolvimento sustentável é a peça-chave da fabricação desse material, pois se produz um tijolo de baixo custo, utilizando matérias-primas que ainda são um grande problema ambiental”, afirma o professor que é coordenador do Programa de Pós-graduação em Ciência e Engenharia de Materiais da UFRN.
Vantagens
Wilson Acchar explica que o processo de fabricação do tijolo-ecológico é simples e não necessita de mão-de-obra especializada. Além disso, não o tijolo é levado para a queima, dispensando o corte da lenha nativa comumente utilizada como combustível nas indústrias. Essa vantagem evita a dispersão de gases poluentes na natureza.
Por não utilizar fornos e nem secadores, o produto acaba reduzindo gastos energéticos, pois a secagem do material é realizada ao ar livre. “O tijolo solo-cimento não desertifica e nem polui o meio ambiente. Aproveitamos os resíduos e fazemos a mistura dos materiais, moldamos e ele é levado para secagem ao natural”, comenta Acchar. O produto leva de 14 a 28 dias para secar por completo.
O uso de prensas manuais ou hidraúlicas e de um molde determina a forma do tijolo ecológico, que possui dois furos, diferente do tijolo de cerâmica, que possui oito. A pequena quantidade de furos possibilita a economia com materiais para instalação hidraúlica e elétrica, visto que os furos são condutores para a rede. Além disso, os furos influenciam no aumento do isolamento térmico e acústico, pois contém câmaras de ar que tornam a temperatura mais amena e reduz o som externo.
De acordo com dados da Associação Nacional da Indústria do Tijolo Ecológico (Aniteco), o produto apresenta redução de custos como a economia de 100% em argamassas de revestimento para o acabamento das paredes internas e externas e 60% com ferragens para a sustentação estrutural da edificação. O produto é regulamentado pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT NBR 8491:2012).
A pesquisa
O desenvolvimento de toda a pesquisa durou seis anos. O trabalho é uma compilação de resultados obtidos pelo mestrado e doutorado da professora Sheyla Marques, atualmente professora do Instituto Federal de Alagoas (IFAL) campus Palmeira dos Índios, em coautoria com o professor Wilson Acchar da UFRN.
O uso do cascalho proveniente da perfuração de poços de petróleo para fabricação dos corpos de prova foram obtidos em parceria com a unidade da Petrobrás em Mossoró/RN, que armazena os resíduos e faz o tratamento da matéria-prima e cedeu a utilização para o Departamento de Ciência e Engenharia de Materiais da UFRN. Já a cinza do bagaço da cana-de- açúcar foi obtida em parceria com uma empresa sucroalcooleira da Bahia e o Instituto Federal da Bahia (IFBA).
A pesquisa com a utilização desses resíduos é pioneira. A intenção é inserir o produto no mercado. “Conseguimos fabricar um produto ecológico com matérias-primas que são descartadas. A expectativa é incorporá-lo no mercado e realizar maiores estudos sobre os valores comerciais agregados para que venham a ser usados pela construção civil”, afirma a professora Sheyla Marques.