domingo, 14 de fevereiro de 2016

Gestação precoce no RN ocorre com meninas de 10 anos

Novo Jornal - Com 15 anos, a estudante Amanda Alves da Silva, que atualmente reside em Nísia Floresta, se enquadra em um perfil alarmante. Ela espera a chegada de Ana Laura, sua primeira filha. Com 34 semanas de gestação, Amanda estava internada na Maternidade Escola Januário Cicco (Mejec) com ameaça de parto.
A menina se encaixa nos dados de uma pesquisa realizada pelo DATASUS mostrando que, em 2014, de todos os partos realizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS) no Rio Grande do Norte, pelo menos 23% deles foram feitos em meninas com idade entre 10 e 19 anos. A média brasileira é de 20%. No país, mais de 235 mil gestações não planejadas de mulheres jovens são registradas por ano.
O descuido foi o principal motivo da gestação precoce. “Eu tomava anticoncepcional e tive uma alergia e com isso o remédio não fez efeito”, contou.  Acompanhada da cunhada, ela diz que mora com o atual marido e pai da criança, que tem 19 anos.
Os dois se conheceram no carnaval do ano passado. Apesar da gravidez inesperada, o companheiro demonstrou felicidade com a notícia. “Para mim foi uma surpresa, já ele ficou muito contente”, diz.
Diante de uma situação não planejada, a estudante teve que interromper alguns fluxos naturais da vida, como os estudos, mas isso não foi motivo para a desistência da própria gestação. “Nunca pensei em tirar ou qualquer outra coisa e agora vamos esperar nascer”, afirma.
Ao contrário do caso de Amanda, segundo a obstetra e gerente de atenção à saúde da Maternidade Escola Januário Cicco, Maria da Guia, um dos principais fatores para gestações em adolescentes é a vontade que elas têm de engravidar.
Com 22% de partos feitos em meninas com idade entre 10 e 19 anos e cerca de 60% de atendimentos vindos do interior do RN, a realidade pelo menos naquela unidade hospitalar contaria a tese dos especialistas que associam mais o fato ao descuido.
De acordo com a obstetra que trabalha há 26 anos na maternidade referência do estado, existe a fantasia nas adolescentes que uma gravidez nessa faixa etária é impossível de acontecer. “É um pensamento lúdico que as coisas nunca poderiam acontecer com aquelas adolescentes”, disse.
Ela acrescenta que muitas dessas jovens têm o desejo de ser mãe, mesmo sem ter noção do que vão passar. “Ouvi muitas vezes elas dizendo que engravidaram porque querem ser mães”, diz. Apesar do desejo inicial, a médica faz uma ressalva. “Entretanto, quando elas têm o primeiro filho e são questionadas se querem ter outro, em geral dizem que não”.
O trabalho junto ao psicológico dessas jovens também é levado em consideração diante dos números. A primeira medida, explica a psicóloga da maternidade, Manuella Neves, é um levantamento do apoio social e familiar das jovens atendidas na unidade.
“Buscamos identificar as principais fragilidades delas, se têm estrutura emocional e como está o suporte para lidar com essa gestação e até trabalhando os cuidados com a criança após o nascimento”, explica.
Para ela, a problemática de uma gestação em meninas nessa faixa etária não se resume a uma falta de estrutura psicológica; é mais amplo. “É uma questão social mesmo até porque muitas adolescentes chegam aqui e, questionadas se foi planejado ou não a gravidez, elas falam que foi, que era desejada”.