terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Papa defende em livro uma Igreja 'maternal' contra hipocrisia

O Tempo/AFP - Em um livro publicado nesta terça-feira (12), o papa Francisco afirma o desejo de tornar a Igreja mais "maternal", denunciando as atitudes hipócritas e o rigorismo.
Entrevistado pelo vaticanista do jornal La Stampa, Andrea Tornielli, sobre o significado da "misericórdia", sobre a qual ele dedicou um Jubileu extraordinário (Ano Santo), Francisco testemunha em tom familiar suas experiências como padre confessor em contato com os feridos pela vida, e sobre atitudes, boas ou ruins, observadas no clero.
Este livro narra "a minha experiência, minha vida", assegurou ao receber na segunda-feira à noite das mãos da presidente do Grupo Mondadori, Marina Berlusconi, filha de Silvio, a edição italiana.
O livro de 122 páginas, no qual Jorge Bergoglio insiste em sua condição de "pecador" e narra sua proximidade com prisioneiros, será lançado em vinte línguas em 86 países.
Como se curar do pecado, arrepender-se, ser perdoado... Sobre estes temas que o obcecam, Jorge Bergoglio fala como um professor de psicologia, um tema que ele chegou a lecionar. Ele alinha anedotas e comentários zombeteiros: "às vezes, me pego pensando que uma boa escorregada faria bem" a algumas pessoas de caráter rígido da Igreja, porque iriam se reconhecer como "pecadores", observa.
Entre as obras de "misericórdia espiritual", prossegue, nunca devemos esquecer "de suportar pacientemente as pessoas chatas".
Francisco denuncia "aqueles que fazem como os cães, que lambem suas próprias feridas". Também alerta para o cinismo dos "corruptos que se cansam de pedir perdão" e "a hipocrisia daqueles que acreditam que o pecado é uma mancha e que basta ir a uma lavanderia".
"Mas o pecado é mais do que uma mancha. O pecado é uma lesão", acrescenta.
Ele fala do confessionário, aonde gostava de levar ainda que seja "um raio de luz" aos penitentes.
No confessionário, ele critica a "insalubre" curiosidade sobre assuntos de cunho sexual de alguns sacerdotes. A uma adolescente de treze anos, "um confessor perguntou onde ela colocava as mãos quando dormia", afirma.
Ele denuncia outras atitudes inaceitáveis, como a de um argentino muito religioso que tinha um caso com sua empregada doméstica. "Ele achava isso normal, porque os empregados, segundo ele, estavam lá para isso!", relata.
Em outro trecho, lembra de um padre que cobrou de uma mulher na Argentina 5.000 dólares para finalizar o processo de reconhecimento de nulidade de seu casamento, ou de um outro que proibiu um casal de pais de um natimorto sem batismo de entrar em uma igreja.
'O relativismo fere as pessoas'
"A Igreja condena o pecado, porque ela deve dizer a verdade: este é um pecado. Mas, ao mesmo tempo, ela deve abraçar o pecador. Espero que o Jubileu faça surgir a face de uma Igreja que redescobre o ventre maternal da misericórdia", resume o papa neste livro.
Francisco, em continuidade com os seus predecessores, também expressa um julgamento severo sobre o "relativismo" contemporâneo.
"O relativismo também fere as pessoas. Tudo parece ter a mesma importância. Há mais de meio século, Pio XII disse que o drama da nossa época era ter perdido o sentido do pecado. A isso, soma-se atualmente o fato, dramático, de considerar a nossa enfermidade, nosso pecado, incurável", avalia.
E de se questionar "por que tantas pessoas, homens e mulheres, jovens e velhos, de todas as origens sociais, recorrem hoje a feiticeiros ou videntes".
Cauteloso do ponto de vista da doutrina, a entrevista não contém novidades sobre a questão dos divorciados que voltaram a se casar ​ou sobre os homossexuais.
"Primeiro de tudo, eu gostaria que falássemos sobre 'pessoas homossexuais'. A pessoa não se define unicamente por sua tendência homossexual (...) Eu prefiro que as pessoas homossexuais viessem se confessar, que elas permanecessem perto do Senhor, para que oremos juntos. Podemos aconselhá-los, mostrar-lhes o caminho e acompanhá-los", recomenda.
O ator e diretor italiano Roberto Benigni, amigo do papa Francisco; Zhang Agostino Jianquing, um jovem prisioneiro chinês que recebeu uma licença das autoridades prisionais, e o cardeal secretário de Estado, Pietro Parolin, apresentaram nesta terça-feira o livro diante de centenas de jornalistas.